Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural do
  Município de São José dos Campos

COMPHAC

Breve Histórico

 

Ao se escrever um histórico sobre a Igreja de São Benedito e seu entorno, não se pode deixar de falar sobre a Irmandade de São Benedito, pois a partir desta organização que se construiu e se gerenciou a Igreja, ao longo de sua história.

A maior parte das cidades do Vale do Paraíba e mesmo da região Sudeste, possuíram Irmandades de São Benedito como a de São José dos Campos, embora possuindo outros nomes como juizado, por exemplo. Geralmente coligados com a Irmandade de N. S. do Rosário construíram Igrejas e Capelas em nome de seus dois santos de devoção, por toda a região, embora não se comunicando entre si. A característica comum a todas elas é a origem social de seus membros, além de sua organização administrativa. Geralmente são constituídos por escravos e homens livres pobres. Esta origem social irá marcar e diferenciar estas entidades religiosas de outras.

A Irmandade de São Benedito era dividida em vários cargos, alguns eleitos e outros indicados:

 Rei Festeiro                                                     Escrivão

Rainha Festeira                                           Juiz Maior

Capitão de Mastro                                      Juiza Maior

Alferes de Bandeira                                     Juiz Menor

Thezoureiro                                                Juiza Menor

Procurador                                                 Irmãos de Mesa

 Os quatro primeiros cargos se referem a funções exercidas nas festividades religiosas. Tinham obrigações financeiras e organizacionais nas festas de Páscoa, S. Benedito, Natal, etc.

A presidência era exercida por um padre, seja o Capelão contratado, seja o vigário da paróquia. As decisões administrativas eram resolvidas entre o presidente, os juízes, o procurador, o tesoureiro, o escrivão e os irmãos de mesa. As funções exercidas pela Irmandade vinham desde questões religiosas, como as missas e catecismos, até de caráter administrativo, como a construção,  administração da Igreja e gerenciamento dos donativos. Outra de suas atribuições era o auxílio aos membros mais necessitados, que costumavam receber um quantia mensal em dinheiro para suas despesas. A Irmandade sobrevivia a partir de um esquema de “caixinhas” (donativos recolhidos). Para isto, possuíam uma organização de recolhimento das esmolas, onde eram escolhidos membros da irmandade para recolher na Cidade e na zona rural. A partir destas “caixinhas” que produziam suas festas, construíam suas capelas e organizavam sua vida religiosa.

O critério de escolha de seus integrantes em São José dos Campos eram através de votação. Em algumas outras localidades, o processo de escolha dos cargos festivos e religiosos, poderia ser feito por sorteio, no final da Festa de São Benedito.

As festividades eram organizadas pelo Rei e Rainha festeiros eleitos naquele ano, sendo estes mesmos que ficavam encarregados da maior parte das despesas e arrecadação de donativos. As festas organizadas eram a Páscoa, o Natal e a principal delas, a Festa de São Benedito.

Tal como o rei festeiro e rainha festeira, haviam outros cargos cuja função era exercida na organização das festas e no momento da execução desta, como o Alferes da Bandeira e o Capitão do Mastro.

A festa de São Benedito representava a inversão do processo social estabelecido, pois valorizava os grupos sociais mais pobres, representados pelos membros da Irmandade. Nos momentos da festa, o rei e rainha, antes membros da comunidade, se tornavam o centro das atenções. Ao mesmo tempo, os outros membros da irmandade exerciam suas funções na festa e recebiam homenagens por exercê-la, ganhando importância, que cotidianamente não recebiam.

Muitas vezes estes reis não possuíam condições financeiras para  organizar a festa. Neste caso, ou era a Irmandade que custeava a festa, ou o Rei festeiro era substituído, por outro eleito ou indicado pela mesa.

Em 1896, a irmandade montou uma banda e orquestra de música. Para isto se contratou um mestre de música, comprou instrumentos e cedeu um dos salões para se lecionar e ensaiar as músicas. Foram feitos leilões para pagar suas despesas, e receberam doações tanto em dinheiro quanto de partituras e instrumentos. A irmandade, por sua vez, retirava 15% de todo dinheiro que a Banda adquiria, cobrando pelas suas apresentações.

Os regentes recebiam subvenções mensais e tinham como responsabilidades ensinar música aos integrantes da Banda, ensaiá-los e regê-los nas apresentações.

Chegaram a se apresentar em Jacareí e apresentavam nas festas religiosas e nos enterros de membros da Irmandade. Em 1906,utilizavam fardas, como das bandas tradicionais.

Várias vezes mudou de regente, chegando um a ficar somente alguns meses no cargo. Tivemos como diretores musicais: Claudio Martins Lopes de Britto, José Dias de Aguiar, Adolpho Pinotti e como regentes: Luís Camara, Francisco Gaia, Abrahão Porto, Francisco de Paula Sales, Firmino Alves, Alfredo Augusto de Barros Cesar (eleito), Benedicto de Paula Crespo, entre outros. Estes eram, em sua maioria indicados, tendo sido alguns eleitos pelos integrantes da companhia musical. Seus estatutos foram modificados em 1900 e 1908, por Abrahão Porto e pelo Cônego Francisco de Oliveira Lima.

A banda de São Benedito tocava em toda e qualquer cerimônia da cidade, religiosas ou não. Tocou em 1924, nas praças Bento Bueno e Cônego Lima, no carnaval, juntamente com a Banda Coronel Cursino.  No final do mesmo ano, a “Lyra Musical S. Benedicto” acompanhou a missa e procissão de encerramento da Festa de N. S. do Rosário, na Igreja de S. Benedito. Chegou a tocar numa festa na Loja maçônica América, em 1905. Estas atitudes, no sentido de angariar dinheiro para a Irmandade não eram bem vistas, muitas vezes pelos representantes da Igreja Católica. Foi suspensa duas vezes pelo Cônego Lima e teve seus instrumentos vendidos em 1910, para compra de um órgão, mas acabou tendo seu dinheiro sido utilizado nas obras da Igreja.

Atualmente, a Irmandade possui um total de 40 integrantes. Reúnem-se no 1º Domingo de cada mês, na Capela São Miguel, enquanto a Igreja de S. Benedito não conclui suas obras. Suas atividades se restringem mais à chamada “vivência da fé”: catequese, leitura da Bíblia, estudo de textos do evangelho. Sua organização administrativa se restringe a Presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro, possuindo ainda rei e rainha festeiros. Os donativos são arrecadados entre os membros da Irmandade, não mais sendo recolhidos da sociedade como um todo. Os seus membros fazem parte de outras congregações, como a legião de Maria, São Francisco, etc. A diretoria é eleita para um mandato de dois anos. A Festa de São Benedito é organizada pela Igreja Católica, não havendo mais interferência na organização pela Irmandade, que participa dos eventos e procissões.  

 Tanto a banda quanto as festas demonstravam um revezamento entre atividades religiosas e atividades profanas. Na Festa de São Benedito, além da procissão, tivemos as cavalhadas (de origem espanhola), que foi uma tentativa de reprodução das cruzadas, a guerra entre mouros e cristãos. Esta muitas vezes foi criticada e recebeu ordens no sentido de disciplinar suas atividades:

  “(...), o Irmão Anacleto apresentou uma representação que foi pelo Secretario lido em mesa, pedindo para a mesa providenciar, respeito os irmãos que servem na Cavalhada , ainda que venhão poucos, (...) estes deve trajar-se di centimento, calçado e todos em Cavallos bem arreados, e não virem em burros com arreios de caronas ; a mesa prometteo providenciar a respeito.” (Atas da Irmandade de São Benedito,  13/12/1896, pág. 65)

 Não só a Cavalhada, mas também outras atividades ligadas á festa, como o Moçambique, atividade cultural típica de nossa região e que possui elementos da cultura africana (grupos bantu, de origem angola-congonesas), também eram vistos com reservas mesmo pela mesa de São Benedito tendo que participar das atividades religiosas:

   “(...) Compareceo o irmão Lourenço e pedio que a mesa lhe autorisasse a compor a turma de mosambique, para trabalhar no dia da festa, sendo na vespera e no dia; a mesa consedeu, com as condições de serem os moçambiqueiros bem (...b), e respeitadores, acompanhando todos os actos da festa inclusive a procissão, o que foi acceito pelo mesmo.” (Atas da Irmandade de São Benedito, 12/12/1897 pág. 73)

   Muitas vezes houve embates entre a Irmandade e o vigário ou o capelão,  conflitos ora de cunho religioso, ora de cunho organizacional, pois a mesa embora fosse a instância que decidia sobre os atos da Irmandade, era muitas vezes punida pelo padre ou vigário da paróquia. Estes conflitos refletem, na maior parte das vezes uma resistência pela Irmandade de seu sincretismo religioso (elementos como moçambique, cavalhadas, palhaços –demônios - em festas), mal visto pela Igreja Católica, que procurava enquadrá-lo na estrutura religiosa ortodoxa. Refletem também a tentativa de manter sua autonomia administrativa da Irmandade, em relação a organização católica, o que era punida com suspensão das esmolas pelo pároco, única fonte de recursos para a mesma.

Neste sentido, vemos a Irmandade como uma da representantes da religiosidade da sociedade brasileira, e fruto da especificidade da cultura popular paulista, com suas cavalhadas, moçambiques e capelas a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Neste sentido, a Igreja de S. Benedito é a expressão material desta cultura e desta resistência cultural, feito com muito esforço e dificuldade como veremos a seguir.

 A IGREJA DE  SÃO BENEDITO

 A Irmandade de S. Benedito tinha suas atividades exercidas na Capela Nossa Senhora do Rosário, juntamente com a Irmandade Nossa Senhora do Rosário. As decisões acerca da Capela e das festividades eram conjuntas, juntamente com as despesas. No entanto, possuíam diretorias e certas atividades independentes.

Em 1865 houve um pedido enviado à mesa pelos devotos de São Benedito de construção de uma Igreja, para este santo. Devido ao compromisso que a Irmandade de São Benedito possuía com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que constava em auxiliar nas despesas da obra da Capela Nossa Senhora do Rosário, houve conflito com o capelão da época – Padre Amaro Severino de Gouvea – com o juiz de direito e com o vigário – Jacintho Manoel Gonçalves de Andrade. Diante da negativa da mesa em enviar dinheiro para as obras da Capela de Nossa Senhora do Rosário, ficou suspenso pelo vigário a coleta de caixinhas (donativos) no ano de 1865, só voltando as atividades em 1866. Em 1867, Antonio de Castro Mendonça doou um terreno para a construção da Igreja São Benedito, mas esta somente se inicia em 1869, com a compra das taipas e a indicação de um novo administrador da obra.

A partir daí, todo e qualquer dinheiro arrecadado passou a ser empregado nas obras da igreja. Leilões e venda de terrenos foram executados para a mesma, assim como receberam doações para tanto.

Toda construída em taipa, teve a primeira fase das obras concluída em torno de 1880 ou 1881, quando houve a primeira reunião na Igreja de São Benedito. Ao mesmo tempo, a Capela N. S. do Rosário, antiga construção existente na atual Praça Cônego Lima, foi demolida por volta do inicio do século XX (a última referência a esta capela, nas atas da Irmandade de N. S. do Rosário data de 1904), sendo a Irmandade N. S. do Rosário instalada na Capela Nova de S. Benedito.

A partir de 1887 iniciou-se novas obras na Capela, tanto de acabamento (assoalho, vidraças nas janelas, cofre, lustre, altar, vidros no nicho da Igreja, etc.) quanto de ampliação: construiu-se a sacristia esquerda e direita de tijolos, substituiu-se do arco cruzeiro de madeira para tijolo, renovou-se das madeiras do telhado, todas feitas até 1898.

Sofreu pequenas reformas em 1900 e 1911. Na década de 40, sofreu reforma do telhado e reconstrução das torres e paredes anexas da Igreja, além de pintura interna e a transferência dos bancos da matriz.

De 1933 a 1935 funcionou como matriz provisória, devido à demolição e reconstrução da matriz da cidade.

A Igreja abrigou além das Irmandades de S. Benedito e N. S. Rosário, a banda de música e a orquestra de S. Benedito criada pela Irmandade. Entre as festividades típicas da religião católica, a que merecia maior atenção era a de Festa de S. Benedito ocorrida no mês de Abril.

Em 1980 foi tombado pelo Condephaat. Nessa mesma década, após o desmoronamento de algumas partes da Igreja, firmou-se um convênio com a Prefeitura de São José dos Campos para obras de reformas. Em 1984, após a pintura da fachada, foi lançada um selo comemorativo da data de aniversário da cidade com o desenho da Igreja de São Benedito.

O edifício foi preservado por Lei Municipal n.º 3143/86, de 09 de junho de 1986, como Elemento de Preservação Nível 1 (EP-1). A partir de 1993 a Fundação Cultural Cassiano Ricardo passou a ocupar em comodato, o espaço da Igreja sediando o Museu Municipal e abrigando na lateral esquerda da nave principal o Arquivo Público do Município. Foi utilizado para atividades culturais, como apresentações musicais e peças de caráter folclórico. A partir de 1999, o Museu e Arquivo Público se transferem para a sede da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.


* Atribui-se o termo Igreja como convenção, termo usual, em decorrência do tamanho do edifício. No entanto, na administração eclesiástica, ela permanece como Capela durante toda a sua existência, uma vez que não possui um padre permanente indicado pela diocese e nem é sede da Paróquia.