Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural do
  Município de São José dos Campos

COMPHAC

Breve histórico sobre a Capela Nossa Senhora da Aparecida

 Para se entender a história da Capela Nossa Senhora D’ Aparecida é necessário ter-se uma compreensão do papel das capelas ao longo da história de São Paulo. Neste sentido, pode-se afirmar que a história das capelas em São Paulo está em conexão direta com as fazendas rurais paulistas. Utilizou-se como parâmetros para este trabalho o texto “Notas sobre a arquitetura rural paulista do Segundo século”, de Luís Saia. Nesse estudo, pôde-se estabelecer relações entre as capelas religiosas e as fazendas paulistas (especificamente do século XVII, de características bandeirantes), bem como das diversas funções que aquela proporcionou para as estruturas rurais, ao longo do tempo.

No século XVII, as capelas estavam diretamente ligadas à estrutura das fazendas, em São Paulo. Estas estruturas agrárias se organizavam de forma a serem autônomas, procurando possuir e fabricar tudo o que necessitavam para o seu pleno funcionamento. Esta auto-suficiência se transferiu para todas as instâncias das fazendas, seja na atividades produtivas, administrativas, domésticas e mesmo as religiosas. Desta forma, a maior parte das fazendas no Brasil possuíam uma capela em que pudessem ser feitas as funções religiosas.

Essas capelas se localizavam dentro das fazendas, anexadas ao edifício principal (que durante todo o século XVII e XVIII, constituía-se de um prédio em formato retangular), sempre à frente, coligadas ao alpendre e ao quarto de hóspedes. A tríade alpendre – capela – quarto de hóspedes, faziam parte das áreas sociais da fazenda, ligando o mundo exterior com a mesma e ao mesmo tempo delimitando o espaço social da área íntima (quartos, sala e cozinha). Eram nestes espaços sociais que se recebiam as pessoas que iriam visitar as fazendas, trazer encomendas, fazer negócios, etc. O alpendre era a ligação dos espaços sociais (alpendre, capela e quarto de hóspedes) com os espaços familiares, através, geralmente, da sala.

Eram exercidas funções religiosas, como orações, festividades, que podiam ser realizadas por um capelão ou rezador; casamentos e batizados eram realizados quanto recebia a visita de um padre. Além das funções religiosas e de relação com o mundo exterior, possibilitavam também que se verificasse o grau de riqueza do fazendeiro, sendo por isto, na residência, o local tratado com mais zelo:

 

“(...)É na capela, no alpendre e no quarto de hóspedes que o fazendeiro foge um pouco a essa linha franciscana de vida. Aí as fechaduras recebem espelhos tratados com especial lavor, as colunas são decorativas, às vezes até ricas, e, sobretudo aparecem a talha e as pinturas na capela.”[1]

 

Funcionavam também como local onde ficava mais claro a distinção de classes. As capelas do século XVII, construídas como mais um cômodo do edifício principal, possuíam, às vezes, janelas, ou subdivisões nas sacristias, que se ligavam diretamente a parte interna do prédio, reservada aos moradores. Nas cerimônias religiosas, à família ficaria reservada um espaço na frente ou até mesmo dentro da casa, sem entrar na capela, nestas janelas ou cômodos da sacristia. Aos visitantes e empregados ficaria reservada os fundos ou mesmo o alpendre, mostrando no espaço uma hierarquia sócio-econômica.

As capelas permanecem como parte do corpo das residências até meados do século XIX, quando aquelas passam a ser construídas em edifícios independentes nas imediações ou somente como um oratório.

A organização religiosa das fazendas se insere nas tradições religiosas da população brasileira, e, neste caso restrito paulista. No processo de povoação do Vale do Paraíba, as correntes migratórias, num processo de continuidade das tradições religiosas de sua terra natal, estabeleceram-se “em núcleos populacionais incipientes, à beira dos caminhos que se desbravavam, sempre em torno de uma capela, dedicada a seus padroeiros locais.”, “enquanto nos oratórios das moradias e dos sítios a população venera seus padroeiros familiares”[2]

Vários ciclos migratórios ocorreram na região, trazendo seus santos padroeiros, que em conjunto com os processos históricos da região produziram uma organização religiosa característica.

Um elemento marcante de reorganização histórica foi a chegada do café. Com ele, modificou-se as estruturas do campo, expropriando-se pequenos agricultores e estimulando a grande propriedade assalariada. Estes agricultores se deslocam para as cidades, aumentando as vilas e trazendo suas tradições. “Com as famílias, vieram os santos que passaram a contar com intercâmbios de festas e romarias dos moradores das vilas”[3]

Embora no século XX, as capelas particulares sejam um fenômeno raro, devido a presença das igrejas públicas e a reorganização administrativa da Igreja, que desestimularam este tipo de construção, estas permanecem em algumas regiões e cidades. Este é o caso da Capela Nossa Senhora Aparecida, que pode ser entendida como um fenômeno de permanência de determinadas práticas de tradição rural e de adoração dos padroeiros familiares, vindas deste processo de migração urbano-rural no Vale do Paraíba.

A capela foi construída por volta de 1908, possui um pórtico de entrada registrando sua construção, fenômeno iniciado nas fazendas do século XVII, perdurando até início do XX, mesmo nas cidades. Localizada na sede da Chácara de propriedade da família Cursino, foi levantada no mesmo local onde antes havia um pequena capela de nome Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Desta capela anterior há referência no jornal “O Caixeiro”, de 1904:

 

“Na capella de N. S. da Conceição, de propriedade do sr. Francisco Alves da Silva Cursino, realisou-se no dia 8 do andante uma resa em homenagem a Immaculada Conceição; apesar da chuva que cahia por essa ocasião, foi regularmente concorrido por fiéis. Foram sorteados festeiros para o anno vindouro o Sr. Mariano Fernandes da Cruz e a Exma. Espoza do Sr. Cypriano Cursino e o Capitão da fogueira o sr. Benedito Cursino Breval.”[4]

 

Em frente à capela havia um largo chamado de Largo d’Aparecida. Lá havia um bebedouro para os burros de tropas, cavalos e bois de carro, que vinham da zona rural trazendo produtos hortifrutigranjeiros para a comercialização no Mercado[5].

O terreno para a construção da primeira capela foi doado por Manoela Maria de Jesus, sogra de Francisco Alves da Silva Cursino, para Nossa Senhora de Aparecida. Em 1906, esta também doa um prédio que faz divisa à lateral direita da Capela, na esquina da Sebastião Humel com Travessa Chico Luiz. Este quarteirão passa a ser de propriedade da Capela, sendo administrado pelo zelador indicado por dona Manoela, o Sr. Francisco Alves, que utiliza os aluguéis do prédio para melhorias e despesas com a Nossa Senhora[6]. Provavelmente a partir destes aluguéis que se constrói uma capela maior no lugar da antiga.

Num período após a doação, o zelador promove a ampliação da residência ao lado da N. Senhora, esquina com Sebastião Humel , acrescentando-lhe dois cômodos e depois um outro separadamente ( formando um quarto )[7].

Nesta capela eram realizadas festas, terços, reuniões e catecismo, pelo Padre Fortunato Silva Ramos. Também eram realizadas atividades complementares para a Igreja Matriz, como curso de 1ª Comunhão, ministrado pela Dra. Dirce de Melo.

Possuía sala de milagres e santos, que foram doados ao longo da sua história[8]

Foram oito os zeladores que cuidaram desta enquanto era particular, todos fazendo parte da família Cursino. O filho de Francisco Alves, João Alves da Silva Cursino, foi um deles. João Alves contrai uma dívida com Antonio de Paula Ferreira, que recebe em troca o prédio, esquina com a Sebastião Humel, na década de 30[9]. Em 1925, o mesmo João Alves vendeu a Angelo Maria Aurichio um terreno na rua Chico Luiz, entre os terrenos de João Friggi e Antonio Fernandes Cruz[10].

Em 1949, estando na zeladoria Francisco Cursino Andrade, bisneto de Manoela, promove uma série de reformas nos prédios ligados a Capela (antigos n.°s 15 e 17) e nela própria, pois estavam em condições precárias.

Na década de 80 a Nossa Senhora é doada à Mitra Diocesana de Taubaté, com a condição de lá ser realizado missas, pela paróquia da Matriz. Passou a receber a visita de um pároco para celebrar missas e também para sediar conferências da Sociedade São Vicente de Paula. Em 1980, o prédio, esquina da Sebastião Humel com a travessa Chico Luiz, de propriedade da família Paula Ferreira é vendido para André Bertolini, que constrói no local um prédio comercial. André Bertolini se responsabiliza, no processo de construção, por eventuais danos que possam ocorrer na capelinha. Segundo informações da Mitra e do responsável pela Nossa Senhora, Padre João Guimarães, esta construção, conjuntamente com a trepidação dos carros na travessa, teriam abalado as estruturas da Capela, provocando trincas, rachaduras e problemas no telhado[11]. Neste período, na capelinha, é substituído o telhado original em cambota de madeira por tesouras.

Nas mãos da Mitra, passa a receber reuniões das Irmandades da Legião de Maria e dos Vicentinos. Passa-se também a manter grupos de catequese e de oração. Além disto, a procissão de Domingo de Ramos iniciava-se nesta capela, finalizando na Matriz. Havia missas ocasionais e semana de orações na Festa de Nossa Senhora de Aparecida.

Ao longo do tempo, vários prédios foram construídos ao redor da capela, como no terreno divisando com esta, do lado esquerdo, onde foi feito um salão comercial, ainda sendo de propriedade da Nossa Senhora da Aparecida.

Ao mesmo tempo, a Mitra de Taubaté passa a se utilizar do Salão Comercial ( cuja renda é revertida para a constituição da diocese de São José dos Campos ) ao lado da Capela e o transfere a Manoel Pereira, restando a Nossa Senhora Aparecida somente a área onde está situada e o jardim a sua frente.[12] Neste salão passa a funcionar uma gráfica e tempos depois, é demolido, transformando-se num estacionamento

Em 11 de Agosto de 1988, passa a ser um prédio preservado de categoria EP-1, através da Lei Municipal N.º 3.366/88.

Em 27 de Novembro de 1997, é realizada a permuta com a Mitra, fazendo com que a Capela Nossa Senhora da Aparecida, passasse, a partir desta data, a ser uma propriedade pública, sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal de São José dos Campos.



[1] SAIA, Luís. NOTAS SOBRE A ARQUITETURA RURAL PAULISTA DO SEGUNDO SÉCULO in “Morada Paulista”.

[2] ROCHA, Léa Maria da. AS MIGRAÇÕES DO “SAGRADO” in XII SIMPÓSIO DE HISTÓRIA DO VALE DO PARAÍBA. 1ª edição. UNIVAP, São José dos Campos,  São Paulo, 1996, pág. 133.

[3] Idem, Ibidem, pág. 136.

[4] O CAIXEIRO. São José dos Campos, São Paulo, 15/12/1904.

[5] JORNAL DO VALE. São José dos Campos, São Paulo, 02/04/1987.

[6] ESCRITURA DE DOAÇÃO INTER-VIVOS. 1º Translado Livro de Notas nº 124 Fls. 66 a 67. São José dos Campos, São Paulo, 10/03/1906.

[7] Documento que visa manter Francisco Cursino Andrade na qualidade de zelador da Capela N. S. Aparecida, produzido por Higino Leonel Filho,  Cartório do 2º Ofício de Notas, São José dos Campos, São Paulo, 14/12/1949.

[8] Texto encontrado na pasta Capela Nossa Senhora Aparecida, provavelmente entrevista de Francisco Cursino de Andrade, Departamento de Patrimônio Histórico, Fundação Cultural Cassiano Ricardo, São José dos Campos, S.P., 12/03/1980.

[9] CERTIDÃO. Cartório de Registro de Imóveis e Anexos. Comarca de São José dos Campos, Estado de São Paulo, n.º 1287 de 05/01/1932.

[10] CERTIDÃO. Cartório de Registro de Imóveis e Anexos. Comarca de São José dos Campos, Estado de São Paulo, n.º 1526 de 10/12/1932.

[11] Carta à Comissão De Administração Econômico-Financeira da Diocese de Taubaté. Pároco João Guimarães. 04/11/1980.

[12] REGISTRO DE IMÓVEIS E ANEXOS. São José dos Campos, São Paulo. 12/08/1994, Matrícula n.º 109.112, ficha 01.